Acordas, mas ainda estás numa espécie de transe, longe da realidade. Aliás, nem te sentes na realidade, o teu cérebro ainda está a funcionar como no último sonho que tiveste. Desta vez foi mais um pesadelo. Estavas novamente a perder o rumo, ias cair, não viste o abismo, mas sentiste que, se desses mais um passo, nunca mais voltarias. Sentes um arrepio na espinha, é muito cedo para morrer. Tantas coisas que ainda tens pela frente. E perguntas-te porque raio é que tens estes pesadelos?! O subconsciente leva-nos sempre para aquilo que desejamos ou tememos, mas nunca temeste a morte, aquilo que te assusta é a solidão. Nisto, olhas para o lado e a cama está vazia. Continuas a ser apenas tu. O calor que emana do monte de edredões e mantas é apenas teu. Começas a tomar consciência da realidade, por isso enterras o corpo lânguido ainda mais para o fundo do refúgio em que um estrado, com quatro pés, e um colchão conseguem transformar-se. Nunca percebeste muito bem porque é que a cama te faz sentir tão bem.
Passam os minutos que o detestável despertador te concede para essa introspecção. Eu chamo-lhe mais fuga, mas insistes que é o teu momento de preparação para encarar a realidade. Aquela com que te deparas hoje não é, de todo, a melhor. Acordaste num dos teus piores dias. Nem os segundos de prazer que o teu toque de proporcionou alteraram o estado de espírito.
Levantas-te, finalmente. Encaras o espelho, mas de relance. Depois de um duche bem quente tudo será melhor. Estás tão enganada. Já desperta, olhas novamente a tua figura. Como gostavas de ter uma pele mais luminosa, o dentes também podiam estar mais brancos. Nesse instante pensas que é desta que largas o maldito vício. Fumar estraga-te a saúde, estraga-te a pele, não ilumina o teu sorriso. Mas falta-te a coragem. Falta-te tantas vezes a coragem. Quantas e quantas manhãs não fizeste promessas à tua figura? Não delineaste planos e regras? Breves momentos de entusiasmo perante um espelho que, desejavas que fosse igual ao da Branca de Neve. Todos os dias te diria que és a mais bela. Mas, nesta manhã, nem esse te valeria de muito. Voltas a pensar que tens de cumprir tudo aquilo que te tornará mais feliz. Mas quem pensas tu que enganas? Não tens coragem. Se fosses homem dir-te-iam que nãos “os” tens no sítio. Mas és mulher. Que te dirão? Não “as” tens direitas?! Pois não, nem essas duas ingratas te ajudam neste momento. Em vez do queixo sentem uma, incompreensível, atracção pelo umbigo. Só devem descansar quando lhe conseguirem tocar e parece-te, a cada dia que passa, que estão cada vez mais próximas. Ignoras. A agonia já está grande demais e ainda nem saíste de casa.
Segues mecanicamente no resto da rotina. Abres a porta, o sol contempla-te. Afinal há esperança. Nem tudo estará perdido e o dia poderá ficar melhor.
A manhã já vai longa, e de repente dás por ti rodeada de miúdas de 17 e 18 anos. Agora sim tens vontade de cortar os pulsos. Tu já foste assim. Não é justo uma mulher aos 30 sentir-se velha. Não devia ser permitido. Mas aquelas jovenzinhas, cheias de hormonas a pulsar, em cada poro da pele, fazem com que sintas um peso enorme por já teres três décadas no lombo. Não lhes invejas a vida, mas como gostavas de ter aquela pele. Aquela silhueta. Voltar aquela fase em que só de pensar em perder peso, perdias dois quilos. Agora nem que esfoles a pele dos pés a correr 1h por dia consegues perder mil gramas. O dia começou mal, e vai continuar.
Resolves partilhar o deu desespero, sentes-te velha, não te conformas. Do outro lado da linha, aquela voz quente, diz-te que tomara às jovenzinhas serem como tu és. Queres acreditar, mas por mais que ele te diga que te deseja. Por mais que saibas que mesmo com a flacidez, a celulite, é por ti que ele cresce de desejo não te conformas. Mais uma vez procuras a coragem para começar. Mas como é tão fraca compras um bolo com creme. Estás carente. Amanhã será um novo dia e aí sim tudo o que prometeste vai começar a ser cumprido. Agora não te esqueças que é à figura no espelho que tens de dar justificações e ela cara amiga é Mulher e conhece-te melhor do que ninguém.
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