terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um daqueles dias...

Acordas, mas ainda estás numa espécie de transe, longe da realidade. Aliás, nem te sentes na realidade, o teu cérebro ainda está a funcionar como no último sonho que tiveste. Desta vez foi mais um pesadelo. Estavas novamente a perder o rumo, ias cair, não viste o abismo, mas sentiste que, se desses mais um passo, nunca mais voltarias. Sentes um arrepio na espinha, é muito cedo para morrer. Tantas coisas que ainda tens pela frente. E perguntas-te porque raio é que tens estes pesadelos?! O subconsciente leva-nos sempre para aquilo que desejamos ou tememos, mas nunca temeste a morte, aquilo que te assusta é a solidão. Nisto, olhas para o lado e a cama está vazia. Continuas a ser apenas tu. O calor que emana do monte de edredões e mantas é apenas teu. Começas a tomar consciência da realidade, por isso enterras o corpo lânguido ainda mais para o fundo do refúgio em que um estrado, com quatro pés, e um colchão conseguem transformar-se. Nunca percebeste muito bem porque é que a cama te faz sentir tão bem.

Passam os minutos que o detestável despertador te concede para essa introspecção. Eu chamo-lhe mais fuga, mas insistes que é o teu momento de preparação para encarar a realidade. Aquela com que te deparas hoje não é, de todo, a melhor. Acordaste num dos teus piores dias. Nem os segundos de prazer que o teu toque de proporcionou alteraram o estado de espírito.

Levantas-te, finalmente. Encaras o espelho, mas de relance. Depois de um duche bem quente tudo será melhor. Estás tão enganada. Já desperta, olhas novamente a tua figura. Como gostavas de ter uma pele mais luminosa, o dentes também podiam estar mais brancos. Nesse instante pensas que é desta que largas o maldito vício. Fumar estraga-te a saúde, estraga-te a pele, não ilumina o teu sorriso. Mas falta-te a coragem. Falta-te tantas vezes a coragem. Quantas e quantas manhãs não fizeste promessas à tua figura? Não delineaste planos e regras? Breves momentos de entusiasmo perante um espelho que, desejavas que fosse igual ao da Branca de Neve. Todos os dias te diria que és a mais bela. Mas, nesta manhã, nem esse te valeria de muito. Voltas a pensar que tens de cumprir tudo aquilo que te tornará mais feliz. Mas quem pensas tu que enganas? Não tens coragem. Se fosses homem dir-te-iam que nãos “os” tens no sítio. Mas és mulher. Que te dirão? Não “as” tens direitas?! Pois não, nem essas duas ingratas te ajudam neste momento. Em vez do queixo sentem uma, incompreensível, atracção pelo umbigo. Só devem descansar quando lhe conseguirem tocar e parece-te, a cada dia que passa, que estão cada vez mais próximas. Ignoras. A agonia já está grande demais e ainda nem saíste de casa.

Segues mecanicamente no resto da rotina. Abres a porta, o sol contempla-te. Afinal há esperança. Nem tudo estará perdido e o dia poderá ficar melhor.

A manhã já vai longa, e de repente dás por ti rodeada de miúdas de 17 e 18 anos. Agora sim tens vontade de cortar os pulsos. Tu já foste assim. Não é justo uma mulher aos 30 sentir-se velha. Não devia ser permitido. Mas aquelas jovenzinhas, cheias de hormonas a pulsar, em cada poro da pele, fazem com que sintas um peso enorme por já teres três décadas no lombo. Não lhes invejas a vida, mas como gostavas de ter aquela pele. Aquela silhueta. Voltar aquela fase em que só de pensar em perder peso, perdias dois quilos. Agora nem que esfoles a pele dos pés a correr 1h por dia consegues perder mil gramas. O dia começou mal, e vai continuar.

Resolves partilhar o deu desespero, sentes-te velha, não te conformas. Do outro lado da linha, aquela voz quente, diz-te que tomara às jovenzinhas serem como tu és. Queres acreditar, mas por mais que ele te diga que te deseja. Por mais que saibas que mesmo com a flacidez, a celulite, é por ti que ele cresce de desejo não te conformas. Mais uma vez procuras a coragem para começar. Mas como é tão fraca compras um bolo com creme. Estás carente. Amanhã será um novo dia e aí sim tudo o que prometeste vai começar a ser cumprido. Agora não te esqueças que é à figura no espelho que tens de dar justificações e ela cara amiga é Mulher e conhece-te melhor do que ninguém.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Resumo...

Sonhar é fácil, mais ainda quando se tem apenas 14/15 anos.
A adolescência faz-nos vibrar, faz com que tudo pareça simples. Afinal de contas com 14/15 anos são-nos exigidas poucas responsabilidades. Bons resultados escolares, bom comportamento e acima de tudo respeito pelos nossos pais. Simples, não?! Até que acordamos para uma outra realidade, decidir o que fazer nos próximos três anos? Eh pá! Agora que estava tão descontraída tenho de tomar uma decisão dessas?!!! Ainda nem pensei o que quero para amanhã e agora tenho de decidir pelos próximos 3 anos. Assustador!!! Só consigo se tiver ajuda. (Nunca fui boa a decifrar-me, sou complicada demais para isso). Então lá teve de ser...uma “ajuda” de três dias, consultas com psicólogo, formulários, testes, quizz, definir personalidade, etc, etc, etc...Comunicação, representação...ou seja falar, falar, falar.
Decisão: Direito ou Jornalismo. Espera lá! UMA decisão, não DUAS decisões. Só podes escolher um caminho. Direito colocar-me-ia sempre num caminho controverso. Então Jornalismo, “pois quero mudar o Mundo” (na adolescência é permitido pensar assim). Que seja! Segues os próximos três anos naturalmente. Contente e orgulhosa com a decisão que tomaste. Até que...agora decide pelos próximos 4 ou 5 anos. Outra vez?!!!
A verdade é que esta foi mais fácil de decidir. Podes mudar de cidade, tinhas de mudar de cidade. Faro, Algarve. Mudas a morada pelos próximos 5 anos e depois voltas à base. Isso era o final feliz do sonho. Até que acordas e percebes que a Vida não te faz todas as vontades, e obriga-te a moldar os sonhos à realidade. Por lá ficas, tens a sorte de encontrar um emprego, e aquilo que sempre disseste que querias ser, torna-se a tua profissão.
Entras numa nova realidade. Começas a receber salário, compras casa, e agrada-te essa vida. Até porque se bem te lembras, era assim que brincavas quando tinhas apenas 9 anos. Brincavas de mulher independente que vive sozinha, toma as suas decisões, faz as suas regras no domínio Lar. Começas a gostar ainda mais do que fazes, entras no “mundo” és aceite como elemento. E segues normalmente um caminho. Consegues evoluir ao ponte de receberes convites para trabalhar. Fantástico, não?! E de repente dás conta de que deixaste de ter de decidir o que vais fazer nos próximos anos, apenas passas a sonhar com o que gostarias que acontecesse. Uma grande carreira, um parceiro (marido, namorado) talvez um filho, ou dois.
Mas ela ( a vida) é muito tramada. Teimosa mesmo. Tudo era tão mais fácil há 15 anos. Apesar das complicações da adolescência. E que complicações, queres sair à noite, não podes, os pais não deixam que tenhas a liberdade que bem te apetece. Um drama. Tantos testes e matéria para estudar. Outro drama. A cabeça de uma adolescente tem de se ocupar com os namoricos, muito mais importantes. Agora sim é bem mais complicado. Compraste uma casa e tens de pagar a prestação ao Banco, pois o teu ordenado não chega, mesmo que trabalhes 24h. Tens de ter um carro. Como recebes pouco o banco foi o teu melhor amigo e até te “vendeu” parte do dinheiro para o comprares. O carro não anda a ar, e o combustível aumenta todos os dias. Tu também tens de comer (embora devesses passar a alimentar-te em
menos quantidade e mais qualidade). Tens de usar roupas adequadas à profissão que tens e ao lugar que ocupas. A sociedade impõe demasiadas regras. És mulher:
precisas de maquilhagens, sapatos (muitos sapatos), acessórios a condizer com cada indumentária. Pagas impostos, mas de que te valem?! Pouco ou nada pois precisas urgentemente de uma consulta e não podes esperar por uma vaga no serviço público. Pagas algumas dezenas de euros e vais ao consultório privado.
Mas já chega de te queixares. Não podes, nem deves. Aprende a relativizar.
Há 15 anos era bom? Sim era. Mas agora é bem melhor. Muito melhor. Encontraste aquele com quem sonhavas. Lembras-te que nem para ir despejar o lixo te descuidavas na roupa, não fosse ele aparecer pelo caminho?! E sem dares por ti, numa das tuas piores combinações consegues chamar-lhe a atenção. Estás numa das tuas piores fases. Sim aquelas porque todas as mulheres passam. Sentes-te gorda, apesar de só teres de perder uns 3kg. Feia, muda de creme hidratante e põe uma maquilhagem e a tua pele fica fantástica, vai ao cabeleireiro e tudo se resolve. Deprimida. Não tens razão para isso, continuas
a ter amigos, família, emprego e boa qualidade de vida. Mas és mulher e não podes fazer nada contra isso, todas passam pelo mesmo.
Mas não perdeste a tua maior qualidade, a boa disposição, o teu sentido de humor, sabes rir-te de ti. E quanto menos esperavas é isso que o atrai. Ok, e os teus olhos azuis. Pormenores.
Não estás interessada, mas mal dás por ti já estás completamente apaixonada. Depois sonhas, com calma, mas sonhas. E à medida que o tempo passa e vês tudo a dar certo, sonhas com mais confiança ainda. Mas
deixas de fazer desses sonhos as tuas metas. Como já não tens 15 anos, estás mais madura e aprendeste que a vida nem sempre é fácil, aproveitas um dia de cada vez. Da melhor maneira que sabes e podes. Retribuis os gestos, o carinho, a alegria. Dás mais valor a quem te rodeia. Os teus pais tornam-se ainda mais importantes para ti. Os teus amigos, os verdadeiros, aqueles que contas pelos dedos das mãos, mas que são de verdade, também. Tens quem amas ao teu lado. Sentes-te completa. Sabes que encontraste a metade da tua laranja. És feliz.

O regresso....

Sabia que tinha criado este blog, mas já nem me lembrava quando, nem a morada. Desisti de o procurar e, quando estava pronta para criar um novo, o primogénito aparece.
Notas Presas vai assim ter uma nova oportunidade. Acrescento ao texto inaugural "A primeira nota" que a maestrina decidiu juntar a esta orquestra de palavras, não só as que ficaram por dizer na vida profissional, mas também vai lançar aqui sinfonias ficcionadas, aquelas melodias que vão tocando por dentro e que têm de sair para que assim se façam escutar.
O concerto vai começar....